Entrevista ficticia al poeta Álvaro de Campos. (heterónimo de Fernando Pessoa)
realizada por Emilio Zen y Luis Tizcareño.
EZ—Bem-vindo, seja você, poeta e engenheiro Álvaro de Campos, bem-vindo a este
nosso espaço cultural que chamamos de Café Ucronías. Por favor, sente-se e fique
confortável. Na verdade, nós o convidamos para um bate-papo sobre um tópico que é
extremamente importante para você. Por isso o convidamos a nos falar sobre esse tema
que considero muito importante em sua obra poética. Então, vamos falar de metafísica e
arte e sua visão sobre o que Fernando Pessoa tem dito sobre isso. Que tal começar?
AC—Em primeiro lugar, devo dizer, obrigado por me receber. Esse lugar, esse Café
Ucronías me lembra um pouco o Café A Brazileira, aonde o Pessoa costumava ir e a gente
sempre se conhecia lá. Belo local pela sua decoração de obras de arte. Lá era art déco e
aqui é moderno, muito bonito também.
EZ— Bem, muito obrigado. Agora vamos ao que interessa. Por favor, me diga por que o
assunto da metafísica é importante?
AC—A metafísica procura conhecer factos in ou mal definidos. Mas, antes de
conhecidos, todos os factos são indefinidos; e toda a ciência, em relação a eles, está no
estado da metafísica. Por isso chamarei à metafísica, não uma arte, mas uma ciência
virtual, pois que tende para conhecer e ainda não conhece. Se ficará sempre virtual, se o
não ficará; se há outro «plano» ou vida em que deixe de ser virtual — são coisas que nem
eu nem Fernando Pessoa sabemos, porque verdadeiramente não sabemos nada.
EZ—Porque é que não concordas com o que diz Fernando Pessoa em temas como arte
e filosofía?
AC—Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio «Athena», a filosofia — isto é,
a metafísica — não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece-me
que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é
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ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não-ciência. Pensa
Fernando Pessoa, naturalmente que como a metafísica não chega, nem aparentemente
pode chegar, a uma conclusão verificável, não é uma ciência. Esquece que o que define
uma actividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência — conhecer
factos, e não ao da arte — substituir factos.
EZ—Por que sua teoria estética no Ultimatum
AC— Pasmarão talvez destas considerações os que leram o meu Ultimatum, no
«Portugal Futurista» (1917). Nesse Ultimatum lê-se sobre a filosofia uma opinião que
parece, salvo que a precedeu, exactamente a mesma que a de Fernando Pessoa. Não é
bem assim. A conclusão prática pode realmente ser idêntica, mas a conclusão teórica,
que é a prática para uma teoria, é diferente. A minha teoria, em resumo, era que: 1. º
— se deve substituir a filosofia por filosofias, isto é, mudar de metafísica como de
camisa, substituindo à metafísica procura da verdade a metafísica procura da emoção e
do interesse; e que 2. º — se deve substituir a metafísica pela ciência.
[….] A minha teoria estética e social no Ultimatum resume-se nisto: na irracionalização
das actividades que não são (pelo menos ainda) racionalizáveis. Como a metafísica é uma
ciência virtual, e a sociologia é outra, proponho a irracionalização de ambas — isto é, a
metafísica tornada arte, o que a irracionaliza porque lhe tira a sua finalidade própria; e a
sociologia tornada só a política, o que a irracionaliza porque a torna prática quando ela é
teórica. Não proponho a substituição da metafísica pela religião e da sociologia pelo
utopismo social, porque isso seria, não irracionalizar, mas subracionalizar essas
actividades, dando-lhes, não uma finalidade diversa, mas um grau inferior da sua própria
finalidade.
EZ—O que é estética aristotélica para você
AC—Chamo estética aristotélica à que pretende que o fim da arte é a beleza, ou, dizendo
melhor, a produção nos outros da mesma impressão que a que nasce da contemplação ou
sensação das coisas belas. Para a arte clássica — e as suas derivadas, a romântica, a
decadente, e outras assim—a beleza é o fim; divergem apenas os caminhos para esse fim,
exactamente como em matemática se podem fazer diversas demonstrações do mesmo
teorema. A arte clássica deu-nos obras grandes e sublimes, o que não quer dizer que a
teoria da construção dessas obras seja certa, ou que seja a única teoria «certa». É
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frequente, aliás, e tanto na vida teórica como na prática, chegar-se a um resultado certo
por processos incertos ou mesmo errados.
EZ—Finalmente, qual é a sua ideia de arte
AC—A arte, para mim, é, como toda a actividade, um indício de força, ou energia; mas,
como a arte é produzida por entes vivos, sendo pois um produto da vida, as formas da
força que se manifestam na arte são as formas da força que se manifestam na vida. Ora a
força vital é dupla, de integração e de desintegração, anabolismo e catabolismo, como
dizem os fisiologistas. Sem a coexistência e equilíbrio destas duas forças não há vida,
pois a pura integração é a ausencia da vida e a pura desintegração é a morte. Como estas
forças esencialmente se opõem e se equilibram para haver, e enquanto há, vida, a vida é
uma acção acompanhada automática e intrinsecamente da reacção correspondente. E é no
automatismo da reacção que reside o fenómeno específico da vida. [….] Acima de tudo,
a arte é um fenómeno social. Ora no homem há duas qualidades directamente sociais, isto
é, dizendo directamente respeito à sua vida social: o espírito gregário, que o faz sentir-se
igual aos outros homens ou parecido com eles, e portanto aproximar-se deles; e o espírito
individual ou separativo, que o faz afastar-se deles, colocar-se em oposição a eles, ser seu
concorrente, seu inimigo, ou seu meio inimigo. Qualquer indivíduo é ao mesmo tempo
indivíduo e humano: difere de todos os outros e parece-se com todos os outros.
EZ—Mas, para ser mais específico, qual é a sua ideia de arte em relação à ideia de
sentimento que se maneja em seus poemas?
AC—A frescura de impressões, o modo directo de sentir que aprendí nos seus versos,
apliquei-o a outros assuntos, a uma Natureza de ordem diversa. Assim, reparei que uma
máquina é tão natural -porque é tão real, e, afinal, ser natural é ser real, se fôssemos a
pensar a fundo – como uma árvore; e uma cidade como uma aldeia. O que é essencial é
sentir directamente e com ingenuidade as coisas – árvores ou máquinas, campo ou cidade.
A m[inha] sensibilidade predispõe-me a sentir a máquina mais do que a árvore, a cidade
mais do que o campo. Não deixo por isso de ter direito ao nome de poeta. O essencial
ésentir directa e simplesmente. Eu sinto directa e simplesmente. Sinto o complexo, o
anormal e o artificial? É o meu modo de sentir. Logo que eu os sinta espontaneamente,
estou no meu lugar, no lugar que a Natureza, criando-me assim, me impôs. Cumpro o
meu dever. Chamam-me um «transviado». Não o sou. […] Nasci para sentir as coisas
simplesmente, tanto como vós; eu não nasci, como vós para sentir só as coisas simples.
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Se eu sou eu e não vós, para que hei-de escrever como escreveis? Escrevo […] em mim é
eu ser eu. Em que sou eu «transviado» em ser eu? Para mim o único modo de transviar é
criar um sistema, ou pertencer a um sistema. Há horas do dia em que sou materialista [?]
e outras em que sou ultramontano, completamente ultramontano. É conforme sinto. Acho
isto natural. Se, como a grande maioria da gente, eu […], se eu fosse panteísta,
espiritualista, protestante, católico (…), qualquer coisa que se saiba o que é e se pode
definir, eu mereceria o nome de transviado. Apenas vejo nunca pertencendo a um sistema
ou a uma filosofia, mas pertencendo a um cérebro e a um sistema nervoso, e estes têm um
modo de sentir e não uma religião, ou uma estética, ou uma moral qualquer.
4 de enero 2022
Café Ucronías
Zorradepapel.com
